NUDI UFSM

Blog do Núcleo de Direito Informacional da Universidade Federal de Santa Maria.

Diário de uma pesquisadora – o sujeito virtual

Conversando com a Lahis sobre estratégias para o blog, conviemos que seria interessante compartilhar com nossos visitantes impressões que temos em nossas experiências de pesquisa. A maneira de divulgar essas impressões é livre. Como todos puderam ver, em seu último post, Lahis dispôs as suas na forma de questionamento de uma situação fática [de quem, aliás, é o webcomic?]. Eu pretendo dividir um pouco das minhas através dessa seção, Diário de uma pesquisadora, começando por breves comentários a um livro que li recentemente, “Elementos para a crítica da cibercultura: sujeito, objeto e interação na era das novas tecnologias de comunicação”, de Francisco Rüdiger.

Devo alertar que, para leitores de primeira viagem [acostumados com o mundo jurídico sistematizado e livros de literatura água-com-açúcar], o livro é hermético, daqueles que, passando 20 páginas,  joga-se a toalha. Aos leitores de segunda viagem, com alguma incursão em filosofia e bastante persistência, a leitura flui, aos trancos, barrancos e paradinhas para reler, perguntar-se “será que foi isso mesmo que ele quis dizer?”, ler mais uma vez e [amém] seguir adiante. Eis o processo.

Basicamente, o livro é uma compilação de artigos enfocados em discutir as mudanças das noções de sujeito e objeto no contexto da cibercultura. É relativamente antigo (2001) para os padrões atuais de mudança das contigências (é anterior às redes sociais, por exemplo), mas as discussões que traz podem aplicar-se às inovações online posteriores. Os argumentos variam, mas a postura crítica se mantém (nada do pessimismo infernal de Paul Virílio ou do otimismo ingênuo de Pierre Lévy).

Falemos de como o autor encara a figura peculiar do sujeito.

Ora se defende (1) que a concepção de sujeito está em vias de fragmentação no mundo virtual, dada a multiplicidade de identidades que a ferramenta nos permite adotar – ou manifestar. Para apoiar esse raciocínio, Rüdiger cita Nietzsche, que inferiu no século XIX que “somos uma multiplicidade que construiu para si uma unidade imaginária”. Justamente essa unidade, nossa consciência, nosso eu cartesiano [essa pessoinha com quem você fala toda a hora e acredita que é você mesmo], estaria sendo hoje abalado pelo uso das tecnologias da informação e da comunicação. A liberdade que nos proporciona a rede estaria desvelando o que Nietzsche previu que somos. Somos fractais, somos vários. Somos o excêntrico do chat, o fake do Orkut, a revelação do YouTube, o tímido do Messenger. E a Internet nos permite manifestá-lo (mais tarde, entretanto, o autor se perguntará se na realidade não manifestamos apenas o que o meio virtual tem como conveniente). Ora se defende (2) que a velocidade e intensidade do fluxo de informações a que nos sujeitamos na Rede estariam voltando-nos mais para o indivíduo. A multiplicação dos meios comunicacionais, ao mesmo tempo em que afrouxa os nossos vínculos sociais, exigiria em contrapartida uma unidade subjetiva, um porto-seguro do eu. O problema reside no fato de esse eu não mais preocupar-se com os outros (sujeito atomizado), mas apenas com seus desejos, assumindo atitude marcadamente narcisista, um eterno diálogo consigo mesmo.

Em suma, de um lado, temos o múltiplo, de outro, o único, mergulhados na Rede. Pairam dúvidas. Qual pode ser a resposta? Somos fractais ou individuais? Ou ambos?

Um último ponto de destaque e que reafirma o posicionamento crítico de Rüdiger: a defesa de que o virtual não produz a si mesmo, mas antes, alimenta-se do real. A Rede não é um sistema autônomo, separado das ações que se dão em âmbito concreto. Diz Rüdiger: “(…) o ciberespaço não é bem outro mundo (…) mas um campo social que, a despeito das especificidades (…) carrega consigo problemas e mazelas semelhantes às que encontramos no cotidiano mais ordinário.”. Dessa forma, não se pode responsabilizar o ciberespaço pelas faltas e vícios (bem como pelas boas ações) nele manifestados. Essas atitudes são produto de circunstâncias reais, ligam-se a causas sociais concretas. Mesmo o famoso caráter alienante da Rede não é causado pelo meio virtual. Pelo quê, então? Argumentos sobre capitalismo e niilismo abundam. Será?

Despeço-me quase na terça-feira. Espero que os caros visitantes sintam-se desafiados à leitura de Rüdiger, sem se assustarem com o hermeticismo aparente [armem-se com os artigos da Wiki sobre Nietzsche e Heidegger, em todo o caso.]. Quaisquer dúvidas ou críticas, há sempre o amigável box de comentários.

Até a próxima [com mais posts experimentais!].

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