NUDI UFSM

Blog do Núcleo de Direito Informacional da Universidade Federal de Santa Maria.

Sabatina do Google Plus

Esses dias me convidaram para participar do Google +.

No início pensei que o convite era spam. A rede social do Google não era o Orkut? Ao que parece, agora ele é apenas uma delas. E certamente não a mais alardeada.

[Moral da história: não é só de colheita feliz que {sobre}vive uma rede social.]

A vez é do Google Plus. Mas o que há de novo nele? O que fará com que essa rede social subsista ou mesmo supere as outras que estão em voga, como Facebook e Twitter? O que há de (ou o que é posto como) atrativo para os usuários da Web 2.0, esses camaleões que desejam ser únicos e, ao mesmo tempo, pertencentes a um grupo? Mais: essas ferramentas são inovadoras? Úteis? …ou será que há o que se questionar? O post de hoje descreve os recursos básicos do Google Plus, acompanhados da dose conhecida de criticidade.

Google Plus: rede social nova... com aplicativos familiares. Será que pega?

Google Plus: rede social nova... com aplicativos familiares. Será que pega?

1) CÍRCULOS

Ferramenta que permite separar as pessoas que você conhece em seções – círculos – de afinidade, como “amigos”, “família”, “trabalho”. Torna o compartilhamento de arquivos mais simples e rápido. Não é necessário selecionar uma a uma as pessoas que você deseja que tenham acesso a determinado arquivo, bem como não há que se temer que o arquivo seja do conhecimento de todas. Basta selecionar o grupo desejado e compartilhar.

Já vi isso antes? O Orkut possui algo parecido. Desde seus primórdios já era possível dividir a massa amorfa de amigos em “amigos”, “melhores amigos”, “conhecidos”, embora à época tal divisão só servisse para satisfazer o ego de cada usuário. O instrumento ganhou peso há poucos anos, com a aprimoração dos recursos de privacidade do álbum de fotografias. Não há o layout limpo e a funcionalidade do Google Plus, mas a ideia de categorização está aí.

Questiona-se! De fato, o compartilhamento de arquivos tornou-se mais organizado, seguro e veloz. Pode-se compartilhar com um grupo aquilo que interessa ao grupo, e isso com um clique apenas. Dois riscos, entretanto, afiguram-se: (1) banalização do envio de arquivos [também conhecido como efeito “corrente de e-mail”] e (2) rotulação de pessoas. A facilitação proposta, o envio instantâneo a massa selecionada, serve de ensejo para que não nos detenhamos muito naquilo que estamos enviando. Enviamos o que achamos “legal”, “bonito”. Temos boas intenções, queremos dividir, mas quem disse que a pessoa a quem enviamos está interessada? Será que, por vezes, não agimos como verdadeiros spammers? O próprio ato de enviar a um grupo permeia-se de certa impessoalidade. Enviamos algo a todos e a ninguém. Sim, é prático, mas a longo prazo prejudica as relações pessoais, torna-as rasas, superficiais. Como esperar a amizade, a confiança de alguém se nem temos o cuidado de lhe enviar uma mensagem escrita por nós, com palavras dirigidas de maneira exclusiva? O lado negro da praticidade também revela-se na própria essência dos “círculos”: o ato de classificar, o estímulo à rotulação. Objetos são redutíveis a critérios, não pessoas. Pessoas são complexas. As relações estabelecidas entre elas são mutáveis. De um momento para o outro um membro de “conhecidos” pode passar para “melhores amigos”, e vice-versa. Ou ainda: o “ex-conhecidos” pode tornar-se uma outra “coisa” que não se sabe bem o que seja. Meio amigo, meio inimigo, meio-algo. A rotulação não acompanha essa mobilidade. Pelo contrário: cristaliza relações, nomenclaturas e até piadinhas que beiram o preconceito [como é o caso do “chefe” possui um círculo só para si e com quem não é compartilhado “quase nada”]. Simplifica demais.

2) SPARKS

Ferramenta que busca na web arquivos condizentes aos interesses manifestados pelo usuário, a fim de que este “sempre tenha algo para ver, ler ou compartilhar”. Disse que seu sonho é viver em Paris? Tenha acesso a vários pacotes de viagem ao Texas!

Já vi isso antes? O aplicativo lembra o mecanismo utilizado pelos anúncios publicitários no Orkut e Facebook. Baseando-se nos interesses fixos no perfil, como é o caso do Orkut, ou imediatos, como no Facebook, o sistema faz aparecer publicidades de acordo. A diferença do Google Plus é o fato de sua ferramenta não ter fins diretamente comerciais. Sua função é captar informação em sentido lato, que pode ser uma notícia, um vídeo, uma música, uma imagem, e um anúncio, inclusive. O objetivo: a permanência [dependência?] do usuário na rede.

Questiona-se! É uma ferramenta até louvável. Estimula a leitura e o compartilhamento de informações. Quais informações? As informações escolhidas pelo sistema, que presumivelmente utiliza o critério da popularidade, do número de cliques. Aí está o problema. Incentiva-se o acesso a informações da média, nada ou muito pouco de alternativo, contrapontual. A dialética resta prejudicada. Não há divulgação da crítica, pois a crítica não é popular, pelo contrário, é desconfortável, é não entretenimento. Pobre usuário, a quem nem é dado tempo para formar o próprio juízo de opinião ou a síntese de algum conhecimento: os fragmentos da moda se sucedem ininterruptos. Afinal, no Google Plus sempre se tem algo para ver, ler ou compartilhar!  Em uma miríade de centelhas (sparks) de arquivos, ele pensa:  “Para que pesquisar se o Google trabalha para mim?”. O risco de acomodação paira, grave.

3) HANGOUTS

Aplicativo de chat com webcam, só que agora com seus amigos do Google Plus!

Já vi isso antes? Sim, em 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Tudo bem, aí era ficção. Os exemplos da realidade são os famosos programas de conversação online, como Windows Live Messenger e, principalmente, Skype.

Questiona-se! A piada do teletransporte é sofrível. E de inovador o Google Plus traz apenas o layout da ferramenta. A crítica dirige-se mais propriamente à persistência das redes no tema da webcam. Parece haver uma contradição aí. Se a Internet é um lugar (ou antes, um “não-lugar”) de expansão privilegiada da criatividade, em que se pode criar uma versão ideal do “eu”, qual o propósito de expor-se na crua (e às vezes nua…) realidade via webcam? Tanto esforço dispendido na construção de uma persona, que, acredita-se, representa toda a autenticidade pessoal que o mundo real reprime ou que o virtual permite; toda  a maquiagem para a seleção de fotos; todas as palavras do perfil milimetricamente escolhidas… Tudo isso por bits abaixo com um só clique. A menina de propaganda de margarina, que ama o amor e odeia a falsidade, era a tia de meia idade em busca de companhia. O temível “Lord of the Ages” era um garotinho entediado de 12 anos. Para quê insistir tanto no ponto da webcam? Esse recurso não é benéfico para as expectativas, para a fantasia humana.  Em um meio fluído, virtual, a webcam traz o desconforto de ser real demais. E isso não apenas sob o ponto de vista do imaginário, mas pelo viés prático também. Não se pode aparecer via webcam de qualquer jeito, ou pelo menos não para qualquer pessoa. Afinal, aqui encontra-se envolvida uma questão de peso, a imagem, a qual estão conectadas tantas ideias, como o impacto da primeira impressão, a auto-estima e a (in)segurança . Talvez por essa razão os videofones persistam na ficção futurista dos anos 60, ao passo que o telefone continua em voga no século XXI.

Enfim, essas são as características-chefe do Google Plus, pelo viés singelo da presente postadora. Como é um projeto ainda em fase de teste, são esperadas mais modificações e, é claro, atrativos. O NUDI continua de olho (crítico) nas novidades da rede e instiga você para a discussão. Qual a sua opinião sobre redes sociais? Acha que o Google Plus tem espaço? E o principal: tem futuro?

Stanley Kubrick já previa o Hangouts do Google Plus. Ah, não. Esse era o videofone.

Stanley Kubrick já previa o Hangouts do Google Plus. Ah, não. Esse era o videofone.

2 responses to “Sabatina do Google Plus

  1. dinossauroacelerado Julho 12, 2011 às 15:53

    o Google Sparks me trouxe aqui, então acho que ele divulga a crítica também…

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