NUDI UFSM

Blog do Núcleo de Direito Informacional da Universidade Federal de Santa Maria.

Jornada Acadêmica Integrada: contingências virtuais

O post de hoje é uma reflexão sobre fatos que tomaram meu fim de semana. Nada pessoal.

Para quem ignora, a Jornada Acadêmica Integrada, mais conhecida por sua abreviação – JAI, é um evento científico realizado anualmente pela UFSM, em que alunos de graduação e pós-graduação podem socializar conhecimentos produzidos nos três eixos – ensino, pesquisa e extensão. 2011 é o ano da 26a edição da JAI. O acadêmico interessado pode participar como ouvinte ou como apresentador. Nessa última hipótese, faz-se necessário que o acadêmico envie um resumo estendido – algo entre duas e cinco páginas – sobre o trabalho a ser apresentado, havendo para isso prazo determinado e… uma ferramenta online de envio, o chamado sistema.

O sistema de inscrições de trabalhos para a JAI.

O sistema de inscrições de trabalhos para a JAI.

Note-se que o sistema é o único canal para envio de trabalhos, o que revela o alto grau de confiança que a instituição deposita nas ferramentas virtuais. Não há alternativas, nada de mão-própria, correio ou mesmo e-mail. A inscrição deve ser realizada pela via ciberespacial disponibilizada pela Universidade, em seu sítio, sob pena de invalidade [inexistência? Ineficácia? Chama o Pontes aqui!]. Vantagens? Segurança (e.g.: o aluno se identifica não pelo nome, mas pelo número de matrícula), garantia de cumprimento dos requisitos (e.g.: a caixa de texto conta os caracteres do trabalho, barrando o envio daqueles aquém ou além do limite proposto), uniformidade (e.g.: os textos precisam de pouca formatação adicional para se transformarem em anais do evento). Desvantagens? Requer que o acadêmico tenha acesso à Internet. Mas a Universidade possui computadores à disposição dos alunos nos laboratórios de informática. Ademais, não esqueçamos que o Brasil vem investindo em peso na Inclusão Digital. Sem desculpas quanto a isso, portanto. Um ponto de desconforto arguível seria o fato de que a caixa de texto oferecida pelo sistema recebe o texto do Word ou mesmo do Bloco de Notas de maneira esdrúxula. Todos os tópicos se juntam em uma massa amorfa de palavras (CTRL+V do Word) ou, não bastando a persistência do aglutinado textual, a ordem dos tópicos se inverte (CTRL+V do Bloco de Notas). O cabeçalho adverte: “NÃO cole o texto do Word ou outros editores de texto”. Como fazer, então? Digitar páginas inteiras, caractere por caractere? A melhor opção, malgrado o aviso, é copiar, colar e reorganizar o texto, dando todos os enters necessários [nem imagino o trabalho de quem teve que colocar tabelas…]. Mas isso não é o fim do mundo. É até bom para revisar o trabalho e corrigir eventuais erros de digitação. A verdade é que, na primeira tentativa de envio, os meandros do sistema divertem o acadêmico entusiasmado. Mas e se, depois de apertar, confiante, o botão de submissão, o aluno se depara com o seguinte aviso:

Não foi possível concluir a operação. Tente mais tarde.

Não foi possível concluir a operação. Tente mais tarde.

Por óbvio que ele tentará enviar novamente, acreditando que nesse momento futuro e incerto, o “mais tarde”, a operação se concluirá. Mas e se o aviso se repete na segunda, na terceira, na quarta, na quinta… na vigésima segunda tentativa? Em suma, e se ocorre uma falha no sistema?

Foi com esse problema que se defrontaram os alunos que tentaram enviar resumos à JAI no último fim de semana. Pressionados pelo final iminente do prazo de inscrição de trabalhos – domingo, 31/07, às 23h59 -, um número considerável de acadêmicos afluiu ao sistema, preenchendo e formatando o texto com esmero, sem, no entanto, receber o benfazejo aviso de operação concluída. Sem outra opção de envio e sem ter a quem reclamar – lembrem-se: era final de semana e, além disso, a UFSM passa por período de greve dos funcionários -, os alunos só podiam esperar. E tentar mais tarde.

Essa é a primeira contingência virtual que se delineia. A confiança que se deposita em um sistema online e o problema que é gerado quando esse sistema para de funcionar. Por vezes se busca sofisticar uma operação simples – no caso, o envio de um trabalho -, com o intuito de tornar essa operação mais segura, mais uniforme. Mas e as fragilidades do sistema escolhido? E os riscos inerentes à sua circunstância de ser virtual? A possibilidade de sobrecarga por grande número de acessos simultâneos, a possibilidade de pane por invasão de hackers ou pela simples falta de energia elétrica? Como lidar com esses riscos aderidos à virtualidade? Com um sistema alternativo, externo ao original ou externo à Internet, ou com um sub-sistema de manutenção 24h, são sugestões.

A questão é que, naquele derradeiro final de semana, os alunos não estavam munidos de sistemas paralelos a que recorrer em busca de respostas imediatas. A instituição só daria seu parecer sobre a situação na segunda-feira, já esgotado o prazo de envio de resumos à JAI. Restava aos acadêmicos continuarem os reiterados procedimentos de envio, até o último minuto.

…e, paralelamente, desabafar sobre o assunto em redes sociais. O Twitter foi uma rede marcante nesse processo, em especial através do perfil #UFSM Facts, mantido por uma equipe de alunos da universidade, cuja função é divulgar fatos singulares da instituição, em “uma mistura de humor com realidade”. Muitos acadêmicos que não conseguiram lograr êxito no sistema da JAI viram no UFSM Facts um canal para denúncia e mútua consolação. Entre os tweets de domingo destacaram-se as reclamações desesperadas e com pontas de ironia (“Fiquei 30 horas dando F5 no site da JAI. Vou entrar na justiça, pois tortura é crime.”; “há um dia de termino do prazo de inscrição na @jaiufsm, o sistema adere a greve dos servidores.”), o conforto pelo fato de não estar só (Uma coisa que me consola em relação a #JAI é que eu não estou sozinha nessa! =P) e a formulação de hipóteses sobre o porquê da falha. A grande maioria sustentou que o sistema estava sobrecarregado pelo grande número de acessos simultâneos (o pico foram 349, às dez horas da noite de domingo), embora outros tivessem provas de que o problema nada tinha a ver com isso (“3 tentativas as 05:17h (madrugada) e todas com o mesmo erro relatado na imagem. Apenas 1 online no site!). O UFSM Facts chegou a demandar respostas do perfil institucional do evento, #jaiufsm, quanto ao problema, recebendo um lacônico “Na segunda-feira, as reclamações serão repassadas à Comissão para análise”. Chegada a meia-noite e, portanto, findo o prazo, os tweets dos estudantes direcionaram-se a uma campanha pela prorrogação da data de inscrições da JAI. A mobilização, que estimulava os alunos ao envio de e-mails e telefonemas à instituição, contou com inflamada argumentação (Um prazo consiste em permitir todas as funcionalidades dentro do prazo.) e o mote “PRORROGAÇÃO JÁ!”.

O desespero e a revolta dos tweets em UFSM Facts.

O desespero e a revolta dos tweets em UFSM Facts.

Aí está a segunda contingência virtual: a rede social como instrumento de protesto frente ao problema. Através do Twitter, os acadêmicos tiveram a oportunidade de, instantaneamente, desabafar sobre a falha no sistema da JAI, identificar-se com os demais em seus tweets catárticos e, o principal, projetar soluções para esse problema. O “PRORROGAÇÃO JÁ” traduz o potencial das interações virtuais no que diz respeito à cooperação em prol de um bem comum. É uma cooperação atingida depressa, quase concomitante à constatação do problema, por conta das peculiaridades da Internet. Os fluxos virtuais são múltiplos e simultâneos, permitem que, uma vez verificado um problema em um lugar, imediatamente se procure por uma solução em outro, em vários outros. E quando essa solução envolve pessoas, abre-se a discussão, acendem-se as paixões e, como no caso em tela, todos cooperam com seu grito, com seu caractere. Para o efeito desejado, não precisa de marcha, panfleto ou tambor. Basta um tweet.

Depois de toda essa agitação virtual, um final feliz. A UFSM se manifestou nessa segunda-feira de manhã (1/08) sobre o assunto, e prorrogou as inscrições da JAI  até o dia 2/08, terça-feira. A instituição alegou que os problemas do final de semana foram ocasionados por falta de energia elétrica. O pessoal do UFSM Facts postou agradecimentos.

Por todo esse longo post, quis evidenciar, a partir de um caso concreto, que o mundo virtual apresenta contingências desafiadoras. Por um lado, há fragilidades: um sistema online depende da energia absorvida pelo hardware para funcionar, além de sobrecarregar-se com determinada quantidade de acessos simultâneos. Afigura-se periclitante confiar unicamente nesse sistema para operações de relevância, sem a alocação de meios alternativos. Por outro, há certo potencial: em meio a um problema comum, as redes sociais aproximam seres humanos, despertam ações de caráter cooperativo. Os usuários desafogam-se, articulam-se e agem, buscando soluções que beneficiem a um e a todos. De qualquer maneira, a análise de ambas as contingências deve se dar nas devidas medidas, sem supervalorizar nem o virtual e nem o real. Em meio a tantas mudanças e inovações, o que se abre não é um juízo de valor, mas antes mais perguntas

O que você acha?

Jornada Acadêmica Integrada da UFSM: de 18 a 21 de outubro de 2011. Prestigie! As pessoas se esforçaram para inscrever seus trabalhos. Literalmente.

Jornada Acadêmica Integrada da UFSM: de 18 a 21 de outubro de 2011. Prestigie! As pessoas se esforçaram para inscrever seus trabalhos. Literalmente.

[Nunca é tarde para lembrar que segunda-feira, ademais de um dia de glória para os apresentadores de última hora da JAI, foi também aniversário do Rafael Tiburski, membro do NUDI e postador das quartas-feiras. A equipe do blog lhe manda os parabéns, Tiburski.]

2 responses to “Jornada Acadêmica Integrada: contingências virtuais

  1. Andrelize Pinheiro Agosto 5, 2011 às 13:33

    Gostei muito dest post, pois ocorreu um problema grave comigo referente a falhas no sistema da ufsm, entrei no último dia pra realizar minha rematrícula e o sistema simplesmente “deu erro” o que me impediu de efetuar, e com os funcionários em greve não tive com quem reclamar, resultado: Enviei um Requerimento ao Reitor solicitando minha volta a instituição já que o sistema entende como uma desistência do curso quando não se faz a rematrícula… Estou aguardando a resposta da instituição já que não se preocupam se o aluno perderá aula devido a falha do “sistema” .

  2. Lahis Agosto 5, 2011 às 17:24

    O post me lembrou essa tirinha: http://xkcd.com/932/, que compara a derrubada de um site da CIA por hackers à retirada de um pôster colado num lugar alto, e sugere que isso pode causar investimentos num jeito mais caro (/seguro) de fixar pôsters.
    A primeira matrícula que fiz na UFSM foi presencial (acho que ainda é, para os calouros), e lembro de ter esperado horas no sol até a reitoria abrir – e quem não esperou pra abrir, esperou horas na fila pra entrar, porque quando saí ainda tinha uma fila imensa, e poucos funcionários atendendo. Mas eles organizaram de uma maneira que sabiam que seria possível o número de funcionários atender todo o contingente de estudantes dentro do prazo previsto (imagino que ninguém deixou de se matricular por falta de atendimento naquela vez). O que parece mudar com a transição para sistemas virtuais (e inclusive parece ter sido o caso da JAI) é que é como se quem administra o sistema contratasse só um funcionário (ou seja, portal com um servidor insuficiente pro número de acessos previstos) pra receber a mesma demanda que vários teriam. Parece ter certa influência da crença geral de que “sistemas da Internet falham” e isso acaba sendo encarado como normal, desde que eventualmente se consiga o atendimento, e uma tentativa de economizar que não prevê os prejuízos causados pra quem precisa do serviço.
    No caso da JAI, viva o ativismo digital!

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