NUDI UFSM

Blog do Núcleo de Direito Informacional da Universidade Federal de Santa Maria.

Bolhas de Filtro – ameaça ou comodidade?

Como abordado no último post, a internet surge como uma tecnologia que abre uma possibilidade fantástica: um ambiente democrático e globalizado, uma amálgama de opiniões diversas. Mas, em oposição a esse potencial, resta o questionamento: e qual o limite? Um dos grandes limites atuais  é, segundo o conceito criado pelo ciberativista Eli Parser, as bolhas de filtro.

As eleições americanas, disputadas entre Barack Obama e Mitt Romney, causaram grandes discussões, e não apenas nas mídias tradicionais ou em conversas de bares. A internet potencializou o debate democrático. Um dos pontos online de discussão foi o site de fóruns Reddit, orgulhoso por sua tradição de liberdade de expressão. Porém, com a enxurrada de opiniões favoráveis a Obama, alguns usuários começaram a questionar: “Por que metade dos Estados Unidos apóia Romney, enquanto nos fóruns a maioria absoluta apóia Obama? Por que não existe um reflexo?”.

O problema começou porque o Reddit funciona por votos. Os usuários votam o que eles consideram mais importante – e são os que recebem mais votos que aparecem na página principal. Com o tempo, os internautas favoráveis a Obama começaram a colocar mais postagens na página principal. Isso atraiu mais pessoas favoráveis a Obama. E logo, as opiniões defendendo o candidato democrata eram quase hegemônicas na página. O problema foi explicado por outro usuário do fórum assim:  “Somos tão cegos quanto a mídia tradicional. Nós criamos uma bolha de filtro.”

Mas o que é uma bolha de filtro e por que ela existe? Primeiro devemos pensar em uma regra básica da internet: o site precisa agradar o usuário. Pensando nisso, muitos sites criam mecanismos (por meio de algoritmos) que rastreiam os interesses do usuário e limitam o conteúdo baseando-se nisso. Vamos olhar um exemplo simples: hipoteticamente, os filósofos Friedrich Nietzsche e Santo Agostinho fazem uma busca no Google pela palavra “Deus”. Nietzsche, que chegou a afirmar que “Deus está morto”, era obviamente ateu. Agostinho, por outro lado, era um filósofo cristão fervoroso, que sempre afirmou e existência de Deus.

Os resultados de Nietzsche provavelmente seriam de sites agnósticos e ateus, e defenderiam opiniões laicas.
Os resultados de Agostinho mostrariam sites religiosos e católicos, talvez até defendendo intervenções religiosas no Estado.

Como a internet deveria funcionar.

Isso é uma bolha de filtro: o internauta vê o que ele quer ver. A ideia pode parecer estranha. Mas a busca diferenciada foi percebida por Eli Parser, e confirmada por Jacob Weisberg. Essa limitação de conteúdo com base em interesses é usada em centenas de sites. Yahoo mostra notícias que possam interessar o usuário, Facebook restringe publicações com o mesmo critério, assim como o Google e suas buscas. Pode parecer útil em algumas situações, como compras online e compartilhamento de arquivos. Ela foi criada com a intenção exclusiva de comodidade, e assim mais acessos. Entretanto, não podemos restringir o mundo com base em nossas opiniões. Não existe problemas em você defender uma posição política, por exemplo. O risco começa quando ignoramos (involuntariamente) qualquer opinião oposta. Isso é anti-democrático e até perigoso. Vale lembrar a célebre frase de Mark Zuckerberg, criador de Facebook: “Um esquilo morrendo no seu jardim pode ser mais relevante para seu interesse do que pessoas morrendo na África”.

Entenderam a gravidade do problema?

Como ela realmente funciona.

As bolhas de filtro nos isolam do mundo. Ficamos restringidos a uma autopropaganda e uma doutrinação. Pior ainda, uma doutrinação com nossas próprias ideias. Elas limitam o potencial democrático da internet, assim como sua proposta global. Em nome de uma pretensa agilidade no acesso, tudo que é desconfortável e desafiador é eliminado. Limitamo-nos ao acesso de redes sociais e alguns blogs que gostamos. Clicamos nos links que nos são oferecidos. Estreitamos nossa visão de mundo agindo dessa maneira. Não penso que seja isso que desejamos para uma tecnologia como a internet.

Finalizo o post com alguns questionamentos. As bolhas de filtro são positivas ou negativas? Sua criação interfere na privacidade do usuário? É o caso do Direito intervir na situação, para criar uma ambiente mais aberto e democrático? Ou uma auto-regulação baseada numa “ética da internet” seria suficiente? Comentem e compartilhem!

Aproveito para divulgar o livro “Direito da Sociedade de Informação e Propriedade Intelectual”, organizado pelo Professor Doutor Marcos Wachowicz, e no qual a Professora Doutora Rosane Leal da Silva possui um capítulo. A editora é Juruá Editora, e está disponível para compra nesse link: http://www.jurua.com.br/shop_item.asp?id=22792 . Para todos que se interessarem em estudar Direito Informacional e Sociedade de Informação, é uma ótima compra!

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