NUDI UFSM

Blog do Núcleo de Direito Informacional da Universidade Federal de Santa Maria.

Educação Informacional: questionamentos e desafios

Desde o ano passado, um dos maiores projetos educacionais do governo tem sido a expansão da educação informacional (também chamada educação digital).  É visto que educar para o uso de novas tecnologias é algo imperativo. A exclusão digital ainda é um enorme problema, e não apenas um problema físico. Muitas vezes o foco dos governos é a distribuição de tecnologia física, com distribuição e instalação de equipamentos necessários para o acesso à internet. Porém, é preciso pensar na habilitação das pessoas para utilizar, e utilizar bem, a tecnologia. Nesse sentido é vista a importância de programas como o “Programa Um Computador por Aluno”, o PROUCA. Incluído na Lei nº 12.249, de 10 de junho de 2010, o PROUCA tem como objetivo promover a inclusão digital nas escolas públicas por meio da compra de equipamentos de informática, programas de computador, suporte e assistência técnica. O Ministério da Educação ressalta que também está  previsto em seus programas a qualificação dos professores para utilizar essas novas tecnologias. Segundo o MEC, mais de 300 mil professores já realizaram o curso para qualificar o ensino de novas tecnologias.

Porém, os programas de inclusão digital, por mais louváveis que sejam em suas intenções, não são livres de críticas. Não há dúvida de que o pretenso “uso de novas tecnologias” e a propagandeada “escola do século XXI” na maioria das vezes se resume em uma utilização tosca de tecnologias físicas, numa falha tentativa de incentivar os estudos. Quando muito, as crianças aprendem a utilizar softwares básicos e bastante intuitivos, como Word ou Powerpoint. A ausência de um projeto pedagógico sério para esse novo aprendizado impede que projetos como PROUCA tenham os efeitos desejados. Mas o que precisa uma educação informacional efetiva, e por que a legislação ainda está longe de alcançá-la?

O primeiro defeito é o fetichismo por tecnologias “na moda”. Comprar 600 mil tablets para o ensino médio é realmente necessário? É sequer útil?

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A visão de uma escola do século XXI como um lugar onde crianças utilizam tecnologia de ponta faz mesmo sentido?

Antes de pensar em equipamentos, é necessário pensar qual o objetivo do ensino informacional nas escolas de educação fundamental e média. Num momento em que muitos consideram que utilizar um computador sem saber programar é o equivalente digital de ler sem saber escrever, a resposta de pesquisadores da Universidade de Cambridge é: saber programação. Os pesquisadores questionaram a real necessidade de utilizar computadores caros e tablets nas escolas. Para eles, o ideal seria um computador minúsculo, com o custo de um livro didático e que fosse capaz de realizar todas as funções necessárias para o aprendizado em sala de aula. Assim surgiu o Raspberry Pi.

O Raspberry Pi é um computador do tamanho de aproximadamente um cartão de crédito. Conectado em uma televisão, roda o sistema operacional Linux, entra na internet e realiza todas as funções de um notebook barato. Com um pendrive, você pode acessar documentos e outras mídias. E o preço não pagaria nem a tela de um tablet: 70 reais pelo melhor modelo.

Pode-se questionar os limites do pequeno computador. Afinal, muitos discordam da necessidade de ensinar programação básica a crianças. Mas o Raspberry Pi realiza todas as funções de computadores que geralmente custam muito mais do governo. Para aqueles que acreditam que a função da tecnologia na sala de aula é estimular o aluno, o pequeno computador cumpre o objetivo com perfeição. Conectado no televisor ou em um projetor, pode-se assistir filmes, ouvir músicas, acessar a internet e mostrar imagens e documentos. O produto, fabricado por uma fundação sem fins lucrativos é um exemplo para as políticas públicas. Ao invés de apenas comprar equipamentos, não seria melhor para o país fabricar seu próprio Raspberry Pi?

O pequeno Raspberry Pi.

O pequeno Raspberry Pi.

Obviamente, o equipamento não é tudo. O maior foco no incentivo da educação informacional não deve ser fornecer os instrumentos, mas qualificar o professor. Ainda dentro do PROUCA, especialistas questionam a grande carga horária dos cursos de qualificação dos professores. Muitos consideram que a carga de 360 horas é exagerada, ensina prioritariamente inutilidades e desestimula professores. Não bastam bons equipamentos: os profissionais da educação precisam estar prontos para utilizar corretamente todo o potencial que a internet e a computação fornecem.

Segundo o professor Klaus Schlünzen Junior, coordenador do Núcleo de Educação a Distância da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), “A tecnologia por si só não melhora a educação. Isso é algo óbvio e evidente. Educação é um processo humano que depende de bons professores. Ela precisa ser vista como um novo instrumento pedagógico como qualquer outro. Apenas aliada a um professor com boa formação inicial e continuada é que ela poderá trazer efetivos avanços.”.

Com esses questionamentos em mente que se deve buscar políticas públicas funcionais e inteligentes. Assim alcançaremos a sonhada escola do século XXI.

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