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Blog do Núcleo de Direito Informacional da Universidade Federal de Santa Maria.

A nova face do cyberbullying: o linchamento público imotivado de crianças e adolescentes

O cyberbullying, até alguns anos atrás, mantinha características semelhantes ao bullying “tradicional”. A maneira como eram organizadas redes sociais como o Orkut fazia com que o bullying virtual fosse muito semelhante ao bullying comum: geralmente era iniciado e perpetuado dentro de algum círculo social da vítima (escola, vizinhos, família), e consistia em uma sistemática repetição de agressões físicas ou psíquicas. As novas redes sociais, com destaque para o Facebook, fazem com que a agressão mantenha algumas características, mas as alterações foram profundas.

Primeiro, a maneira com que o Facebook está organizado dificulta o bullying característico do Orkut, em que a vítima conhecia seus agressores. Isso porque o Facebook foca no perfil do usuário e não em comunidades. Assim, a agressão tende a ser feita diretamente no perfil da vítima, desestimulando muitos potenciais agressores. Segundo, o Facebook não impede o cyberbullying: o funcionamento da rede social faz com que a incidência seja menor, mas o dano potencial das agressões muito superior. Isso acontece por dois motivos: as páginas de “humor negro” e a função “compartilhar”.

Isso é facilmente perceptível se analisarmos o mais recente caso de cyberbullying de grande repercussão no Brasil, o caso de Julia Gabriele, uma menina de onze anos execrada nas redes sociais. O motivo? Sua sobrancelha. A menina foi primeiro alvo de uma piada em uma página específica. Logo, os seguidores da página começaram a compartilhar fotos da menina e encher seu perfil de agressões. O caso é facilmente percebido como bullying por características como a perseguição da vítima por características específicas, e o uso de estratégias de humilhação reiterada. A novidade é o número de autores: milhares de pessoas, coordenadas por páginas de “humor negro”. Essas páginas são conhecidas por suas polêmicas, e são frequentemente acusadas de difamação, bullying e discurso de ódio. Um caso recente foi o uso indevido de imagens da tragédia da Boate Kiss. Apesar das acusações constantes, todas as grandes páginas continuam funcionando. O modus operantis das páginas é postar fotos das vítimas com comentários preconceituosos e agressivos, e pedir que seus seguidores compartilhem a mensagem. Foi dessa maneira que milhares de pessoas anônimas torturaram psicologicamente Julia Gabriele, dentre vários outros “alvos”.

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Tira de André Dahmer

No caso citado, é visto que a vítima municia o agressor (fato que não elimina o sadismo e crueldade da agressão). Uma criança de onze anos muitas vezes não sabe como manter sua privacidade na internet, e ainda não possui a autonomia para perceber a extensão que uma foto numa rede social pode tomar. Aí entra o mais importante para evitar o cyberbullying: a prevenção. Educar para a utilização correta de redes sociais e da internet em geral é a melhor maneira de prevenir que agressões do tipo aconteçam. Devem entrar nessa ideia tanto pais quanto crianças e jovens.

Mas e quando a agressão foge completamente do controle da vítima? Nesse caso, tende a ser mais grave. Foi o caso da canadense de 17 anos Rehtaeh Parsons, vítima de estupro e que teve as fotos da violência compartilhadas no Facebook. O tempo que o provedor levou para tomar providências não foi rápido o suficiente, e logo a vida da adolescente virou um inferno. Não bastasse a brutalidade do estupro, a menina ainda tinha que conviver com o fato de sua foto ser compartilhada por várias pessoas e com comentários agressivos nas redes sociais. Rehtaeh perdeu amigos e passou a sofrer bullying fora da internet também. A menina morreu na UTI depois de uma tentativa de suicídio. A situação levanta questões importantes: quem divulgou a foto deve pagar uma reparação civil e talvez inclusive penal, mas e quem compartilhou a foto ou fez comentários violentos? Deve se eximir de qualquer responsabilidade?

Rehtaeh Parsons, vítima de cyberbullying

Rehtaeh Parsons, vítima de cyberbullying

A ausência de qualquer legislação específica para cyberbullying só aumenta a dúvida sobre estas questões. Mesmo países mais avançados nessa legislação, como o Canadá, não sabem a resposta para alguns questionamentos. Até lá, devemos utilizar a proteção à imagem garantida no Código Civil, pedindo que o provedor cesse a transmissão das mensagens abusivas e, em último caso, exigindo reparação civil do agressor.  Mas não devemos perder de vista a busca por respostas aos novos questionamentos que a rápida transformação da internet traz.

Faz-se necessário lutar para que a dor das vítimas de cyberbullying não nos faça acreditar cada vez mais na frase de Einstein: “Ficou bastante claro que nossa tecnologia superou nossa humanidade”.

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