NUDI UFSM

Blog do Núcleo de Direito Informacional da Universidade Federal de Santa Maria.

Comoção pública e redes sociais: fogo e pólvora

A comoção pública sempre ocasiona declarações polêmicas e irracionais. Quem nunca, diante de uma situação de desespero, deu um palpite sem o mínimo fundamento? Ou, no pior dos casos, até fez um comentário ofensivo sem perceber a gravidade disso? Fato normal na intimidade diante de acontecimentos chocantes. O problema começa quando a intimidade é relativa, e os palpites e comentários perigosos tomam conta das redes sociais.

No Brasil, tivemos o caso recente do assassinato de Victor Hugo Derppman por um adolescente em menoridade penal. O resultado, em um dia, foi explosivo: as redes sociais foram tomadas de manifestações a favor da redução da maioridade penal. Daí para declarações impensadas foi questão de horas. Usuários do Facebook questionavam como um adolescente podia “matar e estuprar livremente” enquanto não podia “levar palmadinha”. E então começaram as declarações de ódio e incentivo à violência. Pessoas clamavam a morte de menores infratores. Quando um usuário postou um relatório do CNJ, reportando as condições degradantes em estabelecimentos sócio-educativos do Estado do Espírito Santo (http://www.vepema.com.br/vepema/cariboost_files/relatrio-es-cnj.pdf), foi imediatamente chamado de “defensor da impunidade” e o relatório foi recebido como um exemplo a ser seguido. Os defensores da manutenção da maioridade penal não tardaram baixar o nível igualmente: logo ofensas como “estúpidos” e “vocês que deveriam morrer” eram vistas com facilidade nas redes sociais, especialmente Facebook e Twitter.

A racionalidade é posta de lado por muitos usuários

A racionalidade é posta de lado por muitos usuários

O total desrespeito é recorrente nas redes sociais, e em casos chocantes como o assassinato de um adolescente é normal ver declarações ofensivas. É importante lembrar que essas declarações podem ter resultados jurídicos: ao ofendermos outras pessoas na internet estamos sempre sujeitos aos efeitos da lei como se tivéssemos ofendido alguém na rua. A analogia é seguida por muitos juízes. Ainda vale ressaltar que as redes sociais funcionam como registro da vida e comportamento de seus usuários. Quem empresa contrataria uma pessoa agressiva?

Entretanto, tais efeitos não se equivalem ao extremo que a combinação de redes sociais com comoção pública causou no recente atentado a bomba na Maratona de Boston. A especulação causada pela busca de suspeitos fez surgir novas vítimas: os falsamente acusados.

A histeria coletiva para buscar os suspeitos levou a hipóteses absurdas e acusações de pessoas que nada tinha a ver com o ataque. O mais desastroso exemplo foi um fórum criado especificamente  para encontrar pistas dos suspeitos. Quando alguém postou a foto de Sunil Tripathi, um estudante desaparecido desde março, logo os “justiceiros virtuais” tiveram certeza de que ele era o responsável pelo atentado. Um único problema: ele não era. Isso não impediu que o fórum fosse tomado de comentários sem sentido como “a estrutura facial é idêntica à foto liberada pelo FBI” ou “ele possuía relações com grupos extremistas”. Logo as deduções desastradas tomaram conta das redes sociais mais tradicionais, Facebook e Twitter. A confusão chegou a ponto de diversos jornais dos Estados Unidos relatarem Sunil como o suspeito principal.

Quem mais sofreu com as nada inocentes trapalhadas virtuais foi a família de Sunil. Procurando pelo jovem desaparecido, a família tinha inclusive criado páginas em redes sociais para auxiliar na busca. As páginas, especialmente no Facebook, foram tomadas de comentários ofensivos, muitos com discurso de ódio. Já não bastasse o sofrimento dos familiares pelo desaparecimento do estudante, eles conviveram por doze horas com a certeza infundada de milhares de pessoas de que Sunil era o terrorista.

Quando os verdadeiros suspeitos foram identificados, as ofensas cessaram. O site Reddit, onde se originou a confusão, fez um pedido de desculpas público para a família de Sunil. Nada que resolvesse a falta de noção de alguns usuários e a dor da família.

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Descrito pela família como gentil e sensível, Sunil Tripathi foi injustamente execrado pelo “justiceiros virtuais”

A experiência nos mostra que comoção pública e redes sociais dificilmente resultam em bons resultados. A recomendação é que, em momentos difíceis como os citados, os usuários de redes sociais foquem em ações positivas: auxílio às vítimas, apoio moral e cooperação com autoridades. Caso você esteja com raiva, fique longe da internet por um tempo. De ódio e confusões perigosas ela já está cheia demais.

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