NUDI UFSM

Blog do Núcleo de Direito Informacional da Universidade Federal de Santa Maria.

Post especial de sexta: Entre a distopia e a realidade

Por Priscila Valduga Dinarte

Sem título

Imagine um mundo sem livros. Ou melhor, um mundo no qual os livros são considerados ameaças tão grandes que demandam que um exército de bombeiros, – que antes tinham o dever de proteger as casas de incêndios -, para incendiar qualquer residência na qual alguém, sub-repticiamente, guarde um livro. Este é o cenário da obra “Fahrenheit 451” do autor Ray Bradbury. Embora hoje, seja difícil exercer tal controle físico sobre os livros, uma vez que estão, uma infinidade deles, imateriais no ambiente virtual, a obra traz uma reflexão interessante que pode servir à sociedade informacional.

Quando o herói do livro (Guy Montag) questiona seu trabalho de incinerar os livros, seu chefe (Beatty) lhe explica como era o mundo antes.  Em um determinado trecho diz Beatty que: “Imagine o quadro. O homem do século XIX com seus cavalos, cachorros, carroças, câmera lenta. Depois, no século XX, acelere a sua câmera. Livros abreviados. Condensações. Resumos. Tabloides. Tudo subordinado às gags, ao final emocionante” (2014, p.71).

Essa aceleração do movimento lembra o que Paul Virilio preceitua sobre a sociedade atual ao referir que: “uma vez que não faremos nada mais do que pensar as dimensões que o olho é incapaz de ver, que o espaço e o tempo são para nós nada mais do que intuições, as ferramentas de percepção e de comunicação poderão realizar esse paradoxo das aparências que consiste em comprimir a dimensão do universo em um perpétuo efeito de encolhimento” (1996, p.43). Ou seja, essa aceleração acaba por diminuir a qualidade do processo na leitura e intervenção no mundo. Hoje, cada vez mais se fala em encurtamento das publicações, sejam elas no ambiente virtual ou não, tem-se, portanto, o efeito do encolhimento.

Retomando o relato do mundo de antes, em Fahrenheit 451, Beatty continua explicando: “Resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão sob as mãos dos editores, exploradores, locutores de rádio, tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo!” (2014, p.72).

Novamente, os ensinamentos de Paul Virilio merecem destaque ao assinalar que: “Trata-se de fato limitar ao extremo o tempo de intervenção consciente do sujeito, ao ponto de o corpo parecer agir sozinho, sem o amparo da reflexão, em um esquecimento do mundo presente que o liberta da dúvida e da hesitação” (1996, p.84). Dessa forma, qualquer intervenção que demande um tempo maior de reflexão é considerada desnecessária nessa conjuntura. No entanto, é fundamental para determinados assuntos uma reflexão crítica e aprofundada, é o caso da participação popular nas decisões do Poder Público, nas conversas sobre democracia, na discussão sobre políticas públicas, por exemplo.

Nesse sentido, ressalta-se que, é necessário que o tempo seja considerado como um elemento fundamental para a formação do pensamento crítico, não se pode suprimir o que é necessário pra a construção de uma intervenção consciente e sólida, seja nas redes sociais, seja nas páginas de governo eletrônico. E, ainda, cabe considerar que o espaço de fala de uma pessoa é igual ao da outra, nesse sentido, ler, ouvir, ponderar e respeitar a opinião alheia também é vital para uma discussão frutífera, porque, de outro modo, haveria somente uma cacofonia de vozes, fragmento de textos e a construção de uma Torre de Babel na qual ninguém se entende ou não quer entender.

A solução no livro em destaque foi cada ser humano ter guardado um livro na memória, ser o guardião de um saber que havia virado cinza. Na sociedade informacional, faz-se necessário aprender a tratar tanta informação e transformá-la em conhecimento, ler
criticamente e de forma emancipatória o que é veiculado, é saber desacelerar.

Referências bibliográficas:

BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. 3 ed. São Paulo: Globo de bolso, 2014.

VIRILIO, Paulo. A arte do motor. São Paulo: Estação Liberdade, 1996.

 

 

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: