NUDI UFSM

Blog do Núcleo de Direito Informacional da Universidade Federal de Santa Maria.

Post especial de sexta: Você é responsável pelo que você compartilha

Sem títuloPor Priscila Valduga Dinarte

O texto de Lev Tolstói, “A morte de Iván Ilitch[1]” começa com os outrora colegas de Iván Ilitch comentando sobre a notícia de sua morte. A reação dos colegas sobre esse fato, resultou em um “primeiro pensamento de cada um dos cavalheiros reunidos no gabinete era sobre que significado essa morte poderia ter para a transferência ou a promoção deles próprios ou dos seus conhecidos” (2011, p.18). Ao longo do desenrolar da história se apresenta a vida de Iván Ilitch, se descobre que era membro do Tribunal de Justiça e havia morrido aos 45 anos. No decorrer da vida, Iván Ilitch havia feito tudo que socialmente era considerado como uma trajetória normal da vida de um homem daquela época, estudar, trabalhar, casar, ter filhos, etc. Sem grandes atribulações ele segue a sua rotina, na qual, em determinado momento se descreve a forma que ele desenvolvia seu trabalho no tribunal: “em tudo isso era preciso saber excluir aquilo que era real e vital, que sempre perturba a regularidade do curso dos assuntos do serviço: era preciso não permitir quaisquer relações com as pessoas, excetos as relativas ao serviço, e a causa das relações só podia ser o serviço, e as próprias relações só podiam ser de serviço” (2011, p.48).

Doente, em razão de uma contusão que julgou, no início, sem importância, Iván Ilitch resolve chamar um médico, eis o relato que faz do fato: “do mesmo modo como ele próprio posava e representava no tribunal, o médico famoso posava e representava diante dele”. E depois, ao questionar sobre a gravidade da sua situação, relata-se, “não se colocava a questão da vida de Iván Ilitch, apenas a dúvida entre o rim flutuante e o apêndice” (2011, p.55). Por fim, se descreve:

Tudo isso era exatamente igual àquilo que o próprio Iván Ilitch já fizera mil vezes com os réus, e de maneira igualmente brilhante. Com o mesmo brilho, o doutor fez o resumo, com o olhar vitorioso e até alegre, por cima dos óculos, para o réu. Do resumo do doutor, e quiçá para todos os outros, tanto fazia que ele, Iván Ilitch, estivesse mal. E essa conclusão chocou dolorosamente a Iván Ilitch, provocando nele um sentimento de grande autocomiseração e de grande raiva daquele médico indiferente de uma questão de tamanha importância (2011, p.57).

O conto se desenvolve por mais umas 50 páginas e fica o convite à leitura. A primeira vez que li esse texto essa foi a parte que mais me chamou a atenção e continua sendo uma das partes que mais me inquieta. Mas, que relação isso tem com o direito informacional, com a sociedade em rede?

Durante toda a sua vida, Iván Ilitch tratou todas as pessoas que passaram na sua vida como objetos, seja no trabalho, seja na esfera familiar. Não havia qualquer traço de empatia com relação ao outro na conduta de Iván Ilitch, assim, tratando todos como objeto, se escandaliza quando o mesmo tratamento lhe é conferido pelo médico. Ora, diante de problema tão urgente, como pode esse médico insensível não se preocupar? Como pode ficar indiferente? E Iván Ilitch se reconhece no médico, quando afirma que havia várias vezes feito o mesmo no Tribunal.

Na sociedade em rede, a falta de empatia, esse não se reconhecer humano no outro pode acontecer de forma mais acentuada ainda, pois se perde a noção de alteridade, de saber e agir reconhecendo que, atrás de outro dispositivo eletrônico conectado à internet, existe outro ser humano.

Esse processo de objetificação do outro aparece nessas condutas de compartilhamento de informações falsas na internet. Assim, quando se compartilham e publicam informações e notícias, sem verificar a veracidade dessas informações, existe uma responsabilidade do usuário das possíveis consequências desse clique, muitas vezes, impensado, mas que pode ocasionar reações no ambiente virtual e migrar pra fora dele. A Internet não é terra de ninguém, existe responsabilidade civil e penal pelo compartilhamento de informações falsas no ciberespaço.

Esse objetificar aparece também nos casos de “revenge porn”, nos quais se divulgam fotos e vídeos íntimos, na maioria das vezes, de mulheres, como uma forma de vingança sobre o fim do relacionamento, entre outros ditos motivos. Aqui, com um recorte de gênero bem pronunciado, uma vez que meninas e mulheres são as maiores vítimas desse tipo de comportamento, alvos de comentários e chacotas que levam a um sofrimento tal que leva, não raramente, a um ato desesperado de suicídio. O bullying também é um tema de destaque nesse sentido, gerando angústia e sofrimento àqueles que são alvo de tal prática, conforme pode ser verificado em notícia:

A distância entre Parnaíba, no Piauí, e Veranópolis, no Rio Grande do Sul, pelas estradas, é de 3.924 Km. Em novembro de 2013, nas ondas da internet, essas duas cidades não pareceram estar tão distantes assim, já que o óbito de duas adolescentes, uma de 16 e outra de 17 anos, chocou o país. O motivo foi o mesmo: cyberbullying. As meninas não resistiram à vergonha e à humilhação de verem suas fotos íntimas circulando nas mídias sociais, especialmente o Facebook, e se suicidaram. Os dois casos trouxeram à tona a questão do cyberbullying e seus efeitos nas vítimas. Um mês antes, a jovem Francielly Santos, de 19 anos, de Goiânia (GO) teve suas fotos e vídeos íntimos vazados na Internet pelo ex-namorado (PORTELLA, 2013).

Imagine o sofrimento dessas duas adolescentes, com sua intimidade exposta na internet, para um sem número de pessoas acessarem, ainda mais que é praticamente impossível retirar completamente do ciberespaço esse conteúdo, uma vez que é possível copiar, armazenar, reproduzir, realimentar as páginas.

Assim, ao se considerar o outro objeto, como escapar do processo que nos objetifica também? Como Iván Ilitch, não seremos mais que outro paciente para o médico, outro réu, outro colega que se foi e que nos trará uma inesperada promoção (que é o caso dos colegas de Iván Ilitch), em uma rotina de insensibilização, de falta de empatia, falta de reconhecimento, falta de solidariedade. Essa postura necessita ser modificada, para que casos como os de revenge porn, ciberbullying, discursos de ódio sejam duramente combatidos, denunciados e responsabilizados. Uma sociedade solidária só pode ser construída com pessoas que se reconhecem no outro, que respeitam o direito do outro, que atuam em coletividade contra atos atentatórios à dignidade do outro, e isso também no ciberespaço.

 

Referências

PORTELA, Graça. Cyberbullying e casos de suicídio aumentam entre jovens. Agência Fiocruz de Notícias. Disponível em:< http://www.agencia.fiocruz.br/cyberbullying-e-casos-desuic%C3%ADdio-aumentam-entre-jovens&gt;. Acesso em: 14 jun. 2014.

TOLSTÓI, Lev. A morte de Iván Ilitch e outras histórias. São Paulo: Manole, 2011.

[1] A novela foi escrita em 25 de março de 1886.

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