Big Data e Algoritmos: a democracia corre perigo?

Por Guilherme Pittaluga Hoffmeister.

Guilherme

Em entrevista à BBC Mundo, o alemão Martin Hilbert, doutor em Comunicação, Economia e Ciências Sociais, professor da Universidade da Califórnia e assessor de tecnologia da Biblioteca do Senado dos Estados Unidos, discorre sobre uma questão importante: a relação entre o excesso de informação e a democracia.

Algumas questões abordadas por Hilbert, na matéria, merecem destaque: “Quando Martin Hilbert calcula o volume de informação que há no mundo, causa espanto. Quando explica as mudanças no conceito de privacidade, abala. E quando reflete sobre o impacto disso tudo sobre os regimes democráticos, preocupa”.

Muito desse espanto, abalo e preocupação se dá em razão da capacidade que algumas das novas tecnologias da informação e comunicação têm de processar elevadas montas de fluxos informacionais incompreensíveis e de traduzi-las em conteúdos palatáveis. A esse mar de informações, pelo qual se navega e que flutua na superfície da Internet, dá-se o nome de big data. A ferramenta que tem sido utilizada com o propósito de traduzir essas informações é denominada algoritmo.

Assim, por meio dos algoritmos, a vastidão informacional relativa a uma só pessoa, na rede mundial de computadores, o que ao olho humano poderia parecer uma obra de Kandinsky, resta plenamente apreensível. Significa dizer que: seja por intermédio da aplicação de um algoritmo às interações em uma rede social, como o Facebook, seja através de curtidas, compartilhamentos e postagens, é possível prever desde interesses esportivos e padrões de consumo até preferências políticas e intenções de voto.

Por si só, essa constatação já representaria – e representa –, em alguma medida, um risco para a democracia na forma pela qual hoje se concebe. Ora, se um político tem acesso a uma ferramenta como o algoritmo, ele é capaz de verificar rapidamente quais são as reações manifestadas em relação a uma determinada ação. Assim sendo, é possível que ele a altere, seja a forma de se vestir, de se portar, locais a frequentar, tom de discurso e todo e qualquer elemento que sua equipe de marketing considerar importante.

Porém, a questão vai além. Uma prática comum, sobretudo nas redes sociais – e não se pode ignorar o fato de que uma quantidade expressiva dos usuários da Internet as utilizam – é o direcionamento de informação. Esse ponto é facilmente observável no que diz respeito à publicidade comercial, por exemplo: basta pesquisar um calçado ou uma viagem uma única vez para ter o navegador tomado por um flood de spams. O ponto chave é que, por vezes, são sugeridos produtos que de fato interessam, mas que nunca foram pesquisados. Esse é o efeito dos algoritmos: a possibilidade de previsão.

Se isso ocorre em relação aos produtos, mercadorias e serviços, seria demasiado inocente pensar que não se aplicaria também à política. Padrões de consumo são previsíveis e influenciáveis por meio do processamento e direcionamento de informações, e o mesmo ocorre em relação à política. Veja-se, de acordo com Hilbert:

A maior despesa da campanha de Obama em 2012 não foi para comerciais de TV: criou-se um grupo de 40 engenheiros recrutados em empresas como Google, Facebook, Craigslist, e que incluiu até jogadores profissionais de pôquer. A campanha pagou milhões de dólares para o desenvolvimento de uma base de dados de 16 milhões de eleitores indecisos: 16 milhões de perfis com diferentes dados: tuítes, posts do Facebook, onde vivem, o que assistiam na TV.

É inegável que as tecnologias não passam de ferramentas e não são, portanto, a priori, boas ou ruins. Além disso, deve-se levar em conta que com os mesmos instrumentos utilizados por Michelangelo para esculpir David seria possível operar uma chacina em Florença.

Seria demasiado presunçoso dar uma resposta definitiva a uma questão tão complexa como a influência do big data e dos algoritmos nos processos políticos. Ao mesmo tempo, não parece adequado se furtar a um tema tão importante. Diante desse quadro, constata-se que não pensar formas de reinvenção da democracia representativa é deixá-la em sério perigo, perigo de se tornar uma ditadura da informação controlada por poucos.

Fonte: LISSARDY, Gerardo. ‘Despreparada para a era digital, a democracia está sendo destruída’, afirma guru do ‘big data’. BBC Mundo em Nova York. Entrevista com Martin Hilbert. 2017. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/geral-39535650&gt;. Acesso em: 04 maio. 2017.

 

Anúncios

One thought on “Big Data e Algoritmos: a democracia corre perigo?

  1. O tema direcionamento de informação e eleições me fez lembrar o caso do Andres Sepúlveda, que “hackeou” diversas eleições criando bots (um exército de dezenas de milhares de robôs convincentemente disfarçados de pessoas reais, twittando e postando como se fossem) que opinavam na rede apoiando ou associando determinados candidatos a determinadas ideias – https://www.bloomberg.com/features/2016-how-to-hack-an-election/.
    Só que, nesses casos, não é o político que adapta a própria aparência à opinião pública para agradar as pessoas; ele consegue criar um “senso comum” ou uma “opinião pública” artificial que lhe favorece, usando a suscetibilidade das pessoas a ideias que são reiteradas na rede.
    Parece que temos mesmo que repensar o deslumbramento com as ferramentas de participação e interação e olhar mais para os problemas da relação entre internet e democracia.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s