Relato do LACNIC 27

Por Lahis Pasquali Kurtz.

No período de 21 a 26 de maio de 2017, estive em Foz do Iguaçu – PR, no evento organizado pelo registro de endereços de Internet para América Latina e Caribe – LACNIC.

No Brasil, o responsável por essa atividade – e várias outras envolvendo recursos de Internet  – é o Núcleo de Informação e Coordenação do .Br – Nic.Br, administrado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.Br.

FullSizeRender 1           Materiais do evento.

Fui uma das 15 pessoas do Brasil, país anfitrião da vez, contempladas por edital do Nic.Br com inscrição para essa edição do LACNIC. Inserimo-nos no grupo mais amplo de bolsistas (ou becados, como dizia o pin que ganhamos, em espanhol) do evento, selecionados entre inscritos de toda a região – profissionais de redes e internet e acadêmicos.

LahisBecados LACNIC 27.

Além de exercitar nossas habilidades linguísticas para a comunicação espanhol-português, nossa tarefa era participar dos espaços e mediar a interação entre o público que assistia por streaming às atividades e enviava perguntas aos painelistas.

Lahis 2         Levando pergunta do público online ao painelista.

Mas de que tratou, afinal, o LACNIC? Ao olhar para a agenda, deparei-me com muitas atividades diferentes:

Tutoriais – divulgação e aprendizado sobre novidades ocorre nos tutoriais ministrados por técnicos;

LACTLD – diálogo e troca de experiências administrativas e regulatórias entre os responsáveis por registro de domínio de cada país;

LACSEC – abordagem de métodos e protocolos de segurança da informação;

LACNOG – comunidade de operadores de rede da América Latina e do Caribe;

IT Women e Painel Diversidade e Inclusão – discussão de políticas para promover e estimular a participação diversificada de pessoas em projetos de de TI;

FLIP6 – Fórum Latinoamericano de IPv6 (Não sabe o que é isso? Veja aqui);

Fórum público de políticas – sobre administração de recursos digitais, como IP e ASN;

CSIRTS – Grupo fechado que discute resolução de incidentes de segurança digital da América Latina e do Caribe;

FIR/LAC-IX – Fórum de Interconectividade Regional;

Paineis temáticos variados com apresentações e keynotes sobre internet, redes e recursos digitais.

Aparentemente muito técnico, o LACNIC é um campo interessantíssimo para pesquisadores que, como no NUDI, se interessam por aspectos jurídicos e sociais da internet e das TIC. Alguns pontos de destaque dos espaços dos quais pude participar:

Fórum Público de Políticas – Este espaço é, acredito, o principal do evento. Nele, são decididas diretrizes de implementação de práticas e protocolos envolvendo recursos de internet. O mais interessante disso é o formato: consenso.

FullSizeRenderEsquema gráfico sobre o processo de desenvolvimento de políticas.

Como funciona? Fundamentado no pertencimento e em práticas bottom-up, o Fórum do LACNIC é aberto para propostas em uma lista pública. Essas propostas são discutidas pela comunidade e, após a evolução das discussões, são levadas ao fórum presencial, que ocorre 2 vezes ao ano. Lá, o proponente de cada uma faz uma apresentação e defesa e é aberto para manifestação de eventual discordância ou dúvida (o que realmente ocorre, em termos bastante técnicos). Ao final, é feita uma votação com os presentes no fórum e, se houver consenso, a proposta é aprovada. Senão, ela volta para nova discussão na lista pública. Ao ser aprovada uma proposta, ela é levada ao diretório do LACNIC para últimas verificações e ratificação. Em caso de não-ratificação, ela também volta para a lista de discussão. Se ratificada, é implementada pela comunidade.

LACTLD – Nesta espécie de mesa redonda dos responsáveis por registros de domínio de cada país, foram apresentados os distintos modelos de governança de internet adotados por cada um – desde setor de universidade pública, até universidade privada, empresa privada, organização não-governamental, entidade governamental, organização multissetorial. Na abertura desse encontro, houve participação de um membro da ICANN (entidade global responsável pela distribuição de domínios online, assegurando estabilidade e segurança da rede, que deixou em 2016 de ser subordinada ao governo estadunidense).

Também entrou em pauta a questão da interferência regulatória governamental sobre a internet, que bate de frente com o ideal de autorregulamentação que permeia sua concepção e que tende a ser considerada um risco. De maneira geral, o direito entra como um ônus para os técnicos e gestores de recursos de internet – a autonomia total é vista como essencial aos avanços técnicos necessários para a continuidade da internet como a conhecemos. Porém, em alguns debates recorrer à regulamentação é inescapável: o direito entra em questões de segurança da informação, confiabilidade das redes e até mesmo propriedade intelectual sobre registros de domínios online – sobre o valor cobrado para concedê-los, sobre a identificação de duas letras (como o .br, por exemplo) ser associada à identidade de um país ou não (como acabou ocorrendo com o .co, da Colômbia, que é utilizado como “company” em muitos endereços), sobre a liberação de nova camada de endereçamento com mais de duas letras, permitindo novos distribuidores de domínios.

IT Women e Painel diversidade e inclusão – embora sejam espaços distintos, o público era praticamente o mesmo. O painel sobre diversidade e inclusão destacou inciativas para amplificar a diversidade de pessoas que ingressam em profissões que lidam com TI e internet, em especial, alguns projetos de suporte a mulheres que se interessam pela área. Também surgiu a possibilidade de estabelecer um mínimo de presença feminina nos paineis técnicos do evento, que em sua maioria foram compostos por homens. Como a própria comunidade do evento estampava ao se olhar ao redor, TI ainda é uma área predominantemente masculina –  só para registrar o quanto essas questões são importantes: o evento teve 735 participantes, sendo 106, ou 15%, mulheres. O grupo possui uma lista de e-mails ativa em que se coordenam atividades e discussão sobre o tema.

IT WomenPainel IT Women

Fica a conclusão de que um evento sobre redes, domínios de registro online, segurança da informação e internet pode, sim, contribuir para discussões das ciências sociais e humanas. Assim como, aos pesquisadores dessa área que se ocupam desses temas, buscar algum entendimento técnico sobre esses assuntos ajuda a construir essa ponte. Como diz Pierre Lévy, por trás do lado técnico, sempre há discussões sobre quais as finalidades e escolhas sobre como atingi-las:

[…] não há informática em geral, nem essência congelada do computador, mas sim um campo de novas tecnologias intelectuais, aberto, conflituoso e parcialmente indeterminado. Nada está decidido a priori. Os dirigentes das multinacionais, os administradores precavidos e os engenheiros criativos sabem perfeitamente (coisa que a direção da Educação nacional parecia ignorar) que as estratégias vitoriosas passam pelos mínimos detalhes “técnicos”, dos quais nenhum pode ser desprezado, e que são todos inseparavelmente políticos e culturais, ao mesmo tempo que são técnicos… Não se trata aqui, portanto, de uma nova “crítica filosófica da técnica”, mas antes de colocar em dia a possibilidade prática de uma tecnodemocracia, que somente poderá ser inventada na prática. A filosofia política não pode mais ignorar a ciência e a técnica. Não somente a técnica é uma questão política, mas é ainda, e como um todo, uma micropolítica em atos […] (2010, p. 9)

Cabe a nós estarmos abertos a esse diálogo entre áreas e continuarmos participando!

Referência:

LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 2010.

 

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