Falando com fantasmas e fake news: ameaças tecnológicas ao acesso à informação.

Por Lahis Pasquali Kurtz.

Hoje comento algo que poderia muito bem ser um episódio de Black Mirror (aliás, seria uma continuação interessante daquele que a Gislaine comentou aqui). Só não o é porque Black Mirror (ainda) não é um documentário de fatos reais, e falaremos sobre uma tecnologia desenvolvida e potencialmente disseminável no mundo concreto.

Minha atenção foi capturada por um episódio do podcast Radiolab que escutei semana passada, principalmente porque toca num assunto que me interessa como pesquisadora: acesso à informação. Essa é uma das características essenciais à possibilidade de reconhecimento de cada um como legítimo para tomar decisões sobre assuntos que afetam a coletividade – isto é, de democracia. Graças aos avanços nas mídias de comunicação e informação, temos hoje acesso fácil a todo tipo de dado, documento e notícia, de maneira que há poucos anos seria impossível. Assim, sempre que vamos tomar uma decisão importante ou formar opinião sobre um fato, temos à nossa disposição ferramentas para verificar se o que achamos sobre isso é ou não válido. Mas será que essas ferramentas só facilitaram as coisas? Será que estamos treinados para lidar com essa realidade? Ou estamos nos deixando levar pela correnteza num oceano de especulações ditas com propriedade ou por “fatos alternativos” muito bem elaborados?lahis 1

Vamos ao assunto. Você já deve ter usado, visto ou ouvido falar do Photoshop, editor de fotos que permite ao editor dar um toque de “mágica” na aparência das coisas registradas. Olhos fechados que se abrem, bronzeados instantâneos, emagrecimentos, ganho de força e até um dia nublado que se converte em sol e céu azul são possíveis com essa ferramenta. Estamos acostumados a olhar fotos de perto para ver se tem algum “filtro”, pois sabemos que muita coisa que parece ser, não o é.

Agora imagine a seguinte cena: alguém dessa mesma empresa, num grande evento, vai à frente do público e mostra uma gravação de um homem fazendo um discurso. Ele então acessa um software onde o discurso foi registrado em texto e inverte a ordem de algumas palavras escritas, dá um comando ao computador e toca a gravação novamente. A gravação toca a fala na ordem editada, fazendo parecer que o homem disse as palavras naquela ordem.

O público, a essa altura, já está intrigado. Mas não pára por aí. O editor de texto é reaberto e são inseridas novas palavras, que nunca foram ditas, no texto, e dá-se novo comando para reproduzir a gravação. O software Voco, então, reproduz a fala, na mesma voz inicial do homem, dizendo aquelas coisas que foram digitadas e que ele nunca havia falado na realidade. Um discurso, tão real quanto o original, inteiramente editado por computador, com trechos inteiramente inseridos por meio de computador.

A pessoa em poder do software e de um teclado é como um grande ventríloquo, que consegue fazer suas falas serem projetadas na voz de alguém. Mas sabemos que gravações de voz podem ser editadas e nem sempre se pode confiar no que se ouve. Seria mais perigoso se fosse, por exemplo, um vídeo inteiro sendo manipulado, afinal, nada é mais convincente que ver com os próprios olhos quem realmente disse aquelas frases. Eis que isso também já foi desenvolvido: Face2Face, um sistema reproduz a imagem, o rosto, de alguém, enquanto captura a expressão de outra pessoa, que comanda o rosto computadorizado. O rosto de quem comanda serve de mestre para o rosto reproduzido no computador, que vai reproduzir as expressões faciais feitas e filmadas. Inclusive em tempo real (o pessoal do podcast fez um teste com software similar e pessoas controlando rostos de ex-presidentes dos Estados Unidos – aqui).

Isso parece muito empolgante: imagine poder conversar por vídeo com uma réplica de algum ente querido que já se foi; falar com uma réplica audiovisual de algum ídolo ou celebridade; criar filmes inteiros sem que um único ator estivesse de fato interpretando as cenas onde aparece.

De maneira geral, essas possibilidades soam como algo positivo, ou ao menos em primeiro olhar. Porém, as coisas ficam claramente assustadoras quando se coloca a questão de forma mais genérica: conseguiríamos reproduzir evidências audiovisuais de pessoas falando coisas que elas nuca disseram? A resposta é sim. Um software assim torna possível transmitir ao público um debate presidencial inteiro em que os candidatos que parecem falar nunca estiveram presentes, ou transmitir discursos, declarações, manifestações que são inteiramente realizados por pessoas de posse de um software.

O que ocorre no Ministério da Verdade, de 1984, pareceria amadorismo perto do que esse tipo de tecnologia, se aperfeiçoada e popularizada, pode ocasionar. Mas a história, que ultrapassa previsões da ficção, é apenas uma espécie de extremo desse tipo de tecnologia. O exagero serve para ilustrar quão fácil a tecnologia torna a produção de histórias alternativas sobre os fatos, e que muitas vezes se tornam mais convincentes que a própria realidade.

Mais do que um fluxo informacional, temos um grande deserto de informação não-verificada circulando. O internauta desprevenido pode se perder em meio às miragens de fake news. E ainda não há consciência dessa situação; o fato de uma história ser compartilhada repetidas vezes dá a ela um falso aval de legitimidade. Uma das grandes mudanças culturais que veio com a internet foi o costume de buscar informação na rede sobre diversos assuntos; mas o costume de verificar se a informação encontrada é válida ou não ainda carece de ser criado – algo bastante criticado por ocasião das últimas eleições dos Estados Unidos, como por exemplo neste vídeo.

Alguns oásis nesse deserto informacional são portais como o E-Farsas, que pesquisa histórias que circulam pela internet e têm grande repercussão social, ou o Truco, que busca verificar declarações feitas na mídia, e, em inglês, o Politifact, sobre declarações de políticos. A Wikipedia tenta lidar com isso com a tag “citation needed” – página que misteriosamente não tem versão em português. Profissão que vem ganhando destaque nesse contexto, e que também se mostra verdadeira aliada do direito de acesso à informação, é a de “fact checker”, algo como “verificador de fatos”, pessoa responsável por buscar informações sobre um assunto em fontes confiáveis (ou seja, científicas, verificadas por pares e suportadas por dados). Um outro podcast que escuto, Tell me something I don’t know, parte justamente da premissa de algum convidado contar histórias que a audiência não conhece, tendo um fact checker em tempo real para conferir sua veracidade. Ainda, há um selo internacional para verificadores de fatos na internet, que certifica o respeito a princípios que devem ser seguidos nessa atividade.

Desenvolver a competência do pensamento científico, assim, é uma das formas de contornar uma realidade “black mirror” e garantir o direito de acesso à informação, sem deixar-se emaranhar em redes de “fatos alternativos”. Tomar consciência de nossa fragilidade perante esses novos “instrumentos cortantes” do mundo informacional é o primeiro passo para tomar as devidas precauções ao lidar com eles.

lahis1

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s