Surveillance ou vigilância eletrônica das comunicações a partir de David Lyon.

Por Rafaela Bolson Dalla Favera.

Queridos leitores e queridas leitoras do Blog do NUDI, hoje venho compartilhar com vocês um pouquinho dos meus estudos sobre surveillance ou vigilância eletrônica das comunicações. Desde 2015 venho pesquisando sobre esse tema e, desde então, constatei que a vigilância não é uma prática recente, muito pelo contrário, trata-se de algo tão antigo quanto a própria humanidade.

Recente, pode-se dizer, são as novas tecnologias da informação e comunicação (TIC), como a Internet, que potencializaram as práticas de surveillance, especialmente em países desenvolvidos que detém poder sobre grande parte dessa tecnologia, tais como os Estados Unidos.

Em 2013, com as revelações de Edward Snowden sobre a vigilância em massa global executada pela Agência de Segurança Nacional norte-americana (NSA), as preocupações quanto aos direitos humanos violados pela surveillance, como privacidade, igualdade, entre outros, aumentaram consideravelmente ao redor do mundo.

Lyon2
David Lyon

Assim, quando iniciei meus estudos, minha principal preocupação foi encontrar uma boa bibliografia para sustentar meus argumentos. Foi então que descobri David Lyon, hoje um dos marcos teóricos da minha dissertação (ver dissertações em andamento). Lyon é professor de sociologia e de direito na Queen’s University, no Canadá, diretor do Surveillance Studies Centre, e autor de inúmeras obras e artigos científicos sobre o tema.

 

CYMERA_20170721_130714
Obras de David Lyon

É por essa razão que, para aqueles que possuem interesse em pesquisar sobre vigilância, recomendo iniciarem por algumas das obras mais importantes escritas pelo autor, são elas: “The electronic eye: the rise of surveillance society” (1994), “Surveillance after september 11” (2003) e “Surveillance after Snowden” (2015). Infelizmente as obras de Lyon ainda não foram traduzidas para o português, mas é possível encomenda-las pelo site da Amazon.com.

 

Para quem tem pressa, na obra “Vigilância líquida”, os autores Zygmunt Bauman e David Lyon dialogam sobre temas relacionados à vigilância e à fluidez da segurança na atualidade. Além disso, no artigo “As apostas de Snowden: desafios para entendimento de vigilância hoje”, disponível na plataforma Scielo, Lyon identifica e discute alguns desafios, como “pesquisa negligenciada”, “déficit de investigação” e “direção de pesquisa”. Vale a pena conferir!

No YouTube também é possível encontrar vários vídeos em que Lyon aparece palestrando sobre diversos assuntos atrelados à surveillance, como em “Social media surveillance: the view each way”, disponível abaixo:

Nesse vídeo em específico, Lyon explica sobre a vigilância “das” e “nas” mídias sociais, sobre ser vigiado e sobre vigiar. Para ele, as mídias sociais são um fenômeno em rápido crescimento ao redor do mundo, razão pela qual despertam o interesse dos jornalistas e dos pesquisadores.

O sociólogo direciona seus estudos sobre surveillance para os países da América do Norte e da Europa Ocidental, o que não significa que em outras partes do globo esse fenômeno não seja estudado, obviamente.

Surveillance, em sua definição mais comum, significa qualquer tipo de atividade proposital em que os dados pessoais estão em causa. Já quando a prática envolve organizações, diz respeito a uma focada e rotineira atenção aos dados pessoais para determinados propósitos, como cuidado, proteção, gestão, dentre outros.

Para Lyon, os usuários das mídias sociais participam da vigilância na medida em que divulgam dados online, postam coisas, como imagens etc., atuando, assim, cooperativamente e realizando isso por conta própria.

No vídeo, destaca-se uma pesquisa realizada no ano de 2012 com 1000 pessoas em cada país, quais sejam Canadá, Estados Unidos e Inglaterra para compreender os dois lados da moeda, ou seja, os dois lados da vigilância nas mídias sociais.

Disso, tem-se que as mídias sociais são vigilantes por definição, o que significa que elas se utilizam dos dados e informações para diferentes propósitos, como para uso comercial. Ocorre que as novas tecnologias tornaram essa vigilância massiva, potencializando essa observação constante.

Lyon também se preocupa com a classificação social realizada a partir das mídias sociais e com os usuários postando coisas, auxiliando, assim, na criação das categorias que o mercado precisa.

Os resultados da pesquisa mencionada anteriormente apontam que os usuários mais novos, entre dezoito e trinta e seis anos, predominam nas mídias sociais. Esses estão mais dispostos a compartilharem seus dados com as companhias.

Ao serem questionados sobre os tipos de vigilância que estão ocorrendo, a maioria dos entrevistados demonstrou preocupação com a forma com que os provedores de Internet permitem que os dados dos usuários sejam transferidos para terceiros, sem uma ordem ou autorização judicial. Os provedores transferem, por exemplo, para governos, polícia, inteligência e outros, sem uma solicitação judicial formal e sem autorização. Para Lyon isso é algo que tende a continuar no futuro.

Fato é que a maioria dos entrevistados não está contente com a forma como as mídias sociais coletam dados e informações e compartilham com terceiros. Somado a isso, uma minoria possui ideia clara de como proteger seus dados quando estão online.

De outro lado, constatou-se na pesquisa que os próprios internautas individualmente praticam vigilância online, acompanhando e monitorando outros indivíduos, sendo 27% no Canadá, 29% nos Estados Unidos e 26% na Inglaterra. Quando questionados sobre o que achavam que os que estavam sendo observados iriam pensar sobre isso, responderam que se sentiriam embaraçados ou infelizes, haja vista se tratar de uma invasão de privacidade.

Na sequência, 60% dos entrevistados, usuários de mídias sociais, acreditam que olhar as informações dos outros online é justo, pois se estão em domínio público não há problema. Mas ao mesmo tempo, também 60% dos entrevistados disseram que se o rastreamento e o monitoramento acontecer com eles próprios, então sua privacidade estará sendo invadida.

Diante disso o sociólogo questiona: será que a surveillance já é algo normal, do dia a dia das pessoas? Lyon entende que uma cultura da vigilância está crescendo em determinados países, assim como a mentalidade da vigilância e as práticas de vigilância. Por isso, há a necessidade da existência de uma abordagem ética sobre a privacidade online, especialmente nas atividades online. Deve-se educar as pessoas para faze-las entender para onde seus dados estão indo quando estão na rede e quais as consequências disso. São necessárias, também, mais pesquisas sobre o tema surveillance.

Para não me alongar mais, como última indicação de leitura recomendo a recente tese defendida por Elias Jacob de Menezes Neto, intitulada “Surveillance, democracia e direitos humanos: os limites do Estado na era do big data”, na qual o autor dialoga muitíssimo bem com as principais ideias de David Lyon.

Por hoje era isso, espero que as dicas e as indicações de leituras sejam úteis para aqueles que pretendem se aventurar, assim como eu, nesse apaixonante universo da surveillance. Até o próximo post!

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Vigilância líquida: diálogos com David Lyon. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

LYON, David. As apostas de Snowden: desafios para entendimento de vigilância hoje. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 68, n. 1, p. 25-34, mar. 2016. Disponível em: <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252016000100011&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 25 jul. 2017

______. Social media surveillance: the view each way. YouTube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=kWPOyuoF7oA>. Acesso em: 25 jul. 2017.

______. Surveillance after September 11. Cambridge, UK: Polity Press, 2003.

______. Surveillance after Snowden. Cambridge, UK: Polity Press, 2015.

______. The electronic eye: the rise of surveillance society. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1994.

MENEZES NETO, Elias Jacob de. Surveillance, democracia e direitos humanos: os limites do Estado na era do big data. 2016. 291p. Tese (Doutorado em Direito), Programa de Pós-Graduação em Direito, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), São Leopoldo, 2016. Disponível em: <http://www.repositorio.jesuita.org.br/bitstream/handle/UNISINOS/5530/Elias%20Jacob%20de%20Menezes%20Neto_.pdf?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 22 abr. 2017.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s