O dia em que a filósofa Judith Butler foi condenada à fogueira por brasileiros

Por Thaísa Santurion Squizani

Conforme notícias e jurisprudências já publicadas aqui no Blog, é de fácil percepção o aumento aos casos de intolerância à diversidade, de direitos fundamentais e intrínsecos a cada um.

Em outubro deste ano, ocorreu mais um ataque de discurso de ódio no Brasil. Desta vez, o alvo foi a filósofa norte-americana Judith Butler, a qual é ícone mundial nos estudos de diversidade de gênero.

Judith estava de passagem no Brasil para participar de discussões promovidas pela Universidade de São Paulo e a Universidade da Califórnia, a respeito dos conflitos entre Israel e Palestina, bem como os impasses da democracia ocidental.

Embora o a proposta do evento internacional fosse falar sobre populismo, autoritarismo e a corrente preocupação da democracia estar em crise, a intitulada palestra “Os fins da Democracia”, foi entendida de abordagem diversa pelos ofensores, qual seja questões de gêneros.

No transcurso de sua breve passagem, ofensas foram feitas à Butler, promovidas por grupos conservadores, movidos pelo argumento de que a pesquisadora estava no Brasil para participar de um debate sobre a “ampliação da teoria de gênero das escolas”.Tais ofensas foram desde prolações de xingamentos até a queima de um boneco que simbolizava Judith Butler em praça pública – prática que fazia analogia ao, tradicionalmente, realizado na inquisição nas caças às bruxas.

No dia 19 de novembro do corrente ano, a filósofa americana comentou para um artigo produzido pela Folha de São Paulo[1], sobre o ataque ocorrido no Brasil, tal como sobre suas teorias de gênero, dizendo:

Para aqueles que se opuseram à minha presença no Brasil, ‘Judith Butler’ significava apenas a proponente de uma ideologia de gênero, a suposta fundadora desse ponto de vista absurdo e nefasto, alguém —aparentemente— que não acredita em restrições sexuais, cuja teoria destrói ensinamentos bíblicos e contesta fatos científicos.”

No artigo publicado, Judith Butler aproveita o espaço para explicar sua concepção acerca da temática, bem como sua teoria da performatividade de gênero[2]. De acordo com seu entendimento, a formação de gênero não é uma ideologia, como os críticos lhe desaprovam, mas sim busca entender a formação de um direito inerente a pessoa.

Ainda nesse ponto sobre discussão de gênero, Butler questiona cirurgicamente no ponto de como a sociedade trata aqueles que buscam solidificar suas identificações de gênero, como pode-se analisar do trecho em que diz:

Quantos de nós ainda acreditamos que o sexo biológico determina os papéis sociais que devemos desempenhar? Quantos de nós ainda sustentamos que os significados de masculino e feminino são determinados pelas instituições da família heterossexual e da ideia de nação que impõe uma noção conjugal do casamento e da família?

A intolerância cresce diariamente, assim como nossas resistências aos discursos odientos, e que não devemos nos diminuir a tamanha agressão aos direitos fundamentais do ser humano. Negar existência da diversidade e respeito a ela, nos transporta ao retrocesso da fogueira das bruxas, que queimaram até a morte pelo silêncio dos hereges, abarrotados pelo grito dos justos.

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Foto: Paulo Lopes/Futura Press/Estadão Conteúdo…

 

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Foto: Kevin David/A7 Press/Estadão Conteúdo…

 

[1]Disponível em :http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/11/1936103-judith-butler-escreve-sobre-o-fantasma-do-genero-e-o-ataque-sofrido-no-brasil.shtml

[2]Para conhecer mais sobre a teoria da performatividade de gênero: https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2012/05/01/o-conceito-de-genero-por-judith-butler-a-questao-da-performatividade/

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